Seu Zé das Pedras, 67 anos, planta feijão e milho no mesmo pedaço de terra há 45 anos. Seu pai plantou antes dele, e o pai do pai antes. A terra é árida, o sol é implacável, mas sempre deu para viver. Até agora.
"Esse ano não vai ter colheita", diz ele, olhando para o solo rachado. "Já perdi tudo. A cisterna secou em março. O poço artesiano baixou tanto que a bomba não alcança mais."
A situação de Seu Zé se repete em dezenas de municípios do Sertão nordestino. O Rio São Francisco registrou em maio de 2026 o menor nível desde 1986. A vazão na barragem de Sobradinho caiu para 400 metros cúbicos por segundo — menos de 20% da média histórica.
O que mudou
A seca no Sertão não é novidade. O que mudou é a frequência e a intensidade dos eventos extremos. Segundo dados do INMET, a região semiárida brasileira registrou, nos últimos dez anos, seis episódios de seca severa — contra uma média histórica de dois por década.
As mudanças climáticas explicam parte do fenômeno. Mas pesquisadores apontam também para fatores locais: o desmatamento da Caatinga, que perdeu 45% de sua cobertura original; a degradação das margens do São Francisco; e a gestão inadequada dos reservatórios, que prioriza a geração de energia elétrica em detrimento do abastecimento humano e da irrigação.
O abandono das políticas públicas
O Programa Um Milhão de Cisternas, que entre 2003 e 2016 construiu mais de 1,3 milhão de cisternas no Semiárido, foi descontinuado em 2019 e nunca foi plenamente retomado. O Programa de Aquisição de Alimentos, que garantia mercado para a produção da agricultura familiar, também foi reduzido.